Antes de Feud: A Rivalidade de Bette Davis e Joan Crawford


Texto publicado no Daily Mail de 15 de Maio de 2008 por Michael Thornton




Acima Franchot Tone com Bette Davis, abaixo Joan Crawford com Franchot Tone



A mansão decrépita em Hollywood era ocupada por duas irmãs idosas. Uma delas, aleijada, estava caída no chão e indefesa enquanto a outra, uma gárgula grotesca cheia de maquiagem e longos cachos loiros, estava em pé sobre ela, chutando-a perversamente da cabeça aos pés.

Isso é uma cena de um dos filmes mais notórios já feitos, o clássico “What Ever Happened to Baby Jane?” (O que aconteceu com Baby Jane?) de 1962.

Mas a violência ali era apenas uma imitação da realidade. As duas protagonistas eram interpretadas por duas inimigas. Duas rainhas de Hollywood que eram grandes rivais na vida real: Bette Davis e Joan Crawford, que se detestavam há 30 anos e continuariam se odiando até o dia de suas mortes.

Davis, a que atacava no filme, deveria apenas simular violência, mas quando ela levantou o pé, acertou a cabeça de Joan Crawford cortando seu couro-cabeludo, que precisou de três pontos e acabou ficando com um galo do tamanho de um ovo. Foi o clímax da maior briga de Hollywood. A hostilidade que se acumulava havia décadas, apesar de muitas negações públicas de ambas, ainda existia.

Davis manteve essa mentira de que não havia nenhuma rivalidade entre elas até a morte de Joan. Quando, em 1979, uma repórter perguntou sobre os inimigos que ela tinha feito durante sua carreira, Davis respondeu: “Inimigos? Eu não tenho inimigos. Quem?”

“Joan Crawford?” arriscou a repórter.

Em um tom inocente, Davis insistiu: “Eu e a Srta. Crawford não éramos inimigas. Fizemos apenas um filme juntas. Sequer nos conhecíamos.”

A repórter não acreditou.

“A maioria dos rivais dela já morreram,” ela comentou, “e a Srta. Davis agora queria colocar sua imagem como a de uma velhinha comum."

Não há duvidas de que Bette Davis mentiu. O ódio que ela sentia de Joan Crawford era muito real, e longe da mídia, Davis ajudou a acabar com a memória da sua rival até o fim dos seus dias. O que é menos conhecido pelo público é a razão dessa antipatia.

De ambos os lados era algo muito sensível e pessoal, e também de ambos os lados era um caso de amor não correspondido. 

Crawford, bissexual, foi apaixonada por Davis, mas foi rejeitada. Bette era uma heterossexual convicta. Porém, um outro ponto fazia com que o antagonismo fosse muito maior pelo lado de Davis.

Isso foi um segredo por mais de 70 anos, mas Davis, na última visita que fez à Londres dois anos antes de falecer, o revelou para mim: o amor da vida de Bette Davis foi um homem que ela jamais poderia se casar porque havia sido o segundo marido de Joan Crawford.

“Ela o roubou de mim,” Davis admitiu amargamente em 1987. “Ela fez isso friamente, deliberadamente e com crueldade. Eu nunca a perdoei por isso e nunca perdoarei.”

Quando ela me disse isso, Joan Crawford já estava morta havia dez anos e Davis, magra e frágil por conta de um derrame e uma mastectomia, já tinha quase oitenta anos. Ainda assim, o ódio permanecia intenso.

Essa extraordinária saga de amor e possessividade começou em 1935, quando Bette Davis tinha 27 anos e foi escolhida pelo seu estúdio, Warner Bros, para o papel que lhe renderia seu primeiro Oscar de melhor atriz.

No melodrama Dangerous (Perigosa), Davis interpretava Joyce Heath, uma atriz neurótica, egocêntrica e alcoólatra que era levemente baseada na estrela da Broadway Jeanne Eagels, que havia morrido de uma overdose de heroína aos 35 anos.

Contracenando com ela, como o arquiteto que tentava recuperar a estrela, foi escalado um ator alto, moreno e atraente que tinha 30 anos. Franchot Tone havia nascido em uma família nova-iorquina bastante conhecida e era formado pela Cornell University.

Davis era casada havia três anos com seu namorado dos tempos de escola, o músico Harmon Oscar (“Ham”) Nelson. Nelson não era bem sucedido em sua carreira e passava longos períodos longe de casa, viajando com uma orquestra. O casamento já não tinha nenhum sentimento e era visto por todos como um erro.

Depois de poucos dias de gravação em Dangerous, todo mundo no set já havia notado que Davis estava indubitavelmente atraída por Franchot Tone.

Anos depois ela disse: “Eu me apaixonei por Franchot, profissional e pessoalmente. Tudo nele irradiava elegância: desde o nome até o comportamento”.

Havia apenas um problema: Joan Crawford, a principal sex symbol da MGM, recentemente se divorciara do príncipe de Hollywood, Douglas Fairbanks Jr., e acabou conquistando Franchot antes de Bette.

Davis, que estudara teatro, via a si própria como uma atriz. Ela considerava Joan Crawford apenas uma imagem de glamour, cujo sucesso dependia única e exclusivamente de sua beleza.

Bette também acreditava que Joan usava o sexo para alavancar sua carreira. “Ela dormiu com cada estrela da MGM,” ela chegou a alegar mais tarde, “de ambos os sexos.”

Havia alguma verdade nisso. A maioria dos parceiros de cena de Joan Crawford haviam cedido ao seu magnetismo sexual. E ela tinha muitas estrelas entre suas amantes, incluindo Greta Garbo, Marlene Dietrich, Barbara Stanwyck e até mesmo Marilyn Monroe. Um rumor diz que Joan teria tentado incluir Bette entre suas conquistas.

“Franchot não está interessado na Bette”, ela teria dito, “Mas eu não me importaria em leva-la para a cama se eu estivesse de bom humor. Não seria engraçado?”

A primeira vez que Joan chamou Franchot para visitar sua casa em Hollywood, ele a encontrou no solarium, bronzeada da cabeça aos pés e completamente nua. De acordo com amigos e vizinhos, Tone não saiu do solarium durante o dia inteiro.

“Ele estava completamente apaixonado por ela,” Davis admitiu. “Eles se encontravam todos os dias para almoçar... ele voltava para o set com o rosto coberto de batom. E fazia questão de que todos soubessem que era o batom da Joan Crawford. Ele estava honrado de que uma estrela como ela estivesse apaixonada por ele. Obviamente eu fiquei enciumada.”

Durante a filmagem de Dangerous, Joan Crawford anunciou seu noivado com Tone. Para a fúria de Davis, eles se casaram em New Jersey logo que o filme acabou de ser gravado.

A hostilidade entre as duas mulheres foi finalmente revelada na cerimônia do Oscar, quando Davis foi indicada como melhor atriz pela primeira vez.

Duvidando que iria ganhar, Bette usou um vestido azul simples para a cerimônia. Quando seu nome foi anunciado como a vencedora, Tone levantou e a abraçou. Mas Joan permaneceu sentada, de costas para Bette, até que o marido dissesse: "Querida!". Virando apenas a cabeça, Crawford que estava imaculadamente vestida e maquilada olhou para Davis de cima abaixo e disse com alguma acidez na voz: “Bette, meu bem! Que camisola encantadora.”

Ambas as mulheres se casariam quatro vezes. Bette já teria se divorciado de “Ham” Nelson e Joan de Franchot Tone quando Davis recebeu seu segundo Oscar de melhor atriz por Jezebel em 1938, fazendo dela a maior estrela da Warner Bros.

Mas na metade da década de 40 a popularidade de Bette caiu muito e sua posição de rainha do estúdio passou a ficar ameaçada. Neste período, Crawford saiu da MGM e foi contratada pela Warner Brothers, exigindo um camarim que ficasse ao lado do de Bette Davis.

Em seu primeiro filme significativo para a Warner, Mildred Pierce (Alma em Suplício), Crawford ofuscou Davis ao ganhar o Oscar de melhor atriz e acabou assinando um contrato de sete anos com o estúdio, recebendo $200.000 por filme.

Davis estava horrorizada. Já havia assistido Joan Crawford roubar o amor da sua vida sem que pudesse fazer nada para mudar aquilo e agora via a sua rival levar a sua posição como a rainha de Hollywood.

Diz-se que Joan Crawford tentou diversas vezes uma aproximação sexual de Davis, e todas foram negadas por Bette com certa hilaridade. Tendo ouvido, certa vez, que Joan havia dito à colunista Louella Parsons que ela e Bette talvez até fizessem um filme juntas, Davis comentou: “Quando o inferno congelar, talvez.” Para outro membro do estúdio, Bette jurou: “Eu não mijaria em Joan Crawford se ela estivesse pegando fogo.”

Ainda assim, no início de 1960, quando ambas as estrelas estavam na casa dos 50 e eram consideradas como ‘veneno’ de bilheteria, foi Joan Crawford quem ajudou a rival ao encontrar um livro que faria com que ambas protagonizassem o maior retorno às telas da história do cinema.

Em What Ever Happened to Baby Jane?, Davis foi escolhida para interpreter Baby Jane Hudson, uma alcoólatra louca que havia sido uma estrela quando criança e sempre foi acusada de ter deixado a irmã Blanche, uma grande estrela de Hollywood, aleijada em um acidente de carro.

Jack Warner, o homem que antes havia sido o chefe de Joan e Bette, se recusou a financiar o filme, comentando: “Eu não daria um centavo para essas vadias ultrapassadas.”

Como Davis contou diversas vezes em programas de televisão, muitos estúdios recusaram o projeto, dizendo ao produtor e diretor Robert Aldrich: “se você se livrar dessas duas e contratar alguém que realmente venda ingressos, nós te daremos o dinheiro.”

Mas Aldrich foi em frente com pouco dinheiro e com apenas seis semanas disponíveis para fazer a filmagem. No set, várias pessoas dizem ter visto Bette Davis provocar Joan Crawford diversas vezes.

Ao notar que Bette estava riscando o script certa vez, Joan perguntou: “Você está cortando as falas de quem, Bette?” e Davis respondeu “As suas!”.

Quando Crawford, viúva de Alfred Steele, presidente da Pepsi-Cola, passou a levar para todos no estúdio um cooler de Pepsi, Davis descobriu que a garrafa de Joan – que sempre estava em suas mãos – era 'batizada' com vodka.

“Aquela maldita está bêbada metade do tempo!” enfurecia-se Bette. “Como é que ela ousa se encher dessa merda em um filme comigo? Eu vou matar essa mulher!”

Quando, na cena dos chutes, Davis acertou a cabeça de Joan, Bette jurou que tinha sido um acidente. Mas Crawford logo igualou o ‘placar’. Em uma outra cena, quando Baby Jane deveria carregar a irmã aleijada, Crawford usou uma cinta por baixo da roupa, cheia de pesos. Davis teve muita dificuldade para levantá-la, gritando “Minhas costas! Meu Deus, minhas costas!”. Depois Crawford se levantou calmamente, sorrindo, e foi para o camarim.

Quando o filme foi lançado, ambas as estrelas – que dividiram os lucros -, fizeram uma fortuna. Davis foi novamente indicada para o Oscar de melhor atriz; Crawford não foi.

Davis dizia que Crawford fez questão de fazer todo o possível para não deixa-la ganhar. Na cerimônia, quando o nome de Anne Bancroft foi anunciado como vencedora do Oscar de melhor atriz, Davis disse: “Eu nunca vou esquecer o olhar dela [Joan] para mim. Era triunfante. E dizia claramente: ‘Você não ganhou, e eu estou eufórica por isso!’”

Crawford recebeu o Oscar em nome de Bancroft, que não pôde comparecer à cerimônia. Os jornais mostraram uma foto de Joan segurando o Oscar que sua rival não foi capaz de vencer. Davis ficou furiosa. Dois anos depois, quando Robert Aldrich tentou uní-las novamente para filmar “Hush... Hush, Sweet Charlotte” (Com a Maldade na Alma), o ódio de uma pela outra acabou sendo maior do que a vontade de Robert de uni-las novamente.

Davis juntou todos, elenco e produção, menos Crawford, para fotos onde seguravam garrafas de Coca-Cola, a rival da Pepsi. Tudo porque Crawford já tinha sido casada com o presidente da Pepsi [e ela mesma foi um membro da diretoria por muitos anos]. Crawford, já cansada da hostilidade de Davis, diplomaticamente disse que estava com pneumonia e foi substituída no filme por Olivia de Havilland.

Em 1968, o ódio ressurgiu quando Davis descobriu que Tone, o amor de sua vida e um fumante compulsivo, estava morrendo de câncer de pulmão. Crawford levou seu ex-marido para seu flat de 9 aposentos em Nova York e cuidou dele até a morte, supervisionando até mesmo a cerimonia em que espalharam as cinzas dele.

“Até quando o coitado estava morrendo, aquela vadia não deixou ele em paz,” irritou-se Bette. “Ela tinha que monopolizar Franchot até na morte.”

Em 1º de março de 1977 o American Film Institute entregou à Bette o Lifetime Achievemente Award. Crawford não foi à cerimônia e nem assistiu a transmissão pela televisão. Ela tinha parado de beber havia dois anos e estava pesando menos de 45Kg. Em 10 de maio de 1977 ela morreu no seu flat de Nova York, aos 73 anos. A causa oficial da morte foi um infarto, mas dizem que a real foi câncer no fígado.

Não houve nenhum tributo ou palavras de tristeza vindas de Bette Davis e ela não foi a nenhuma das homenagens prestadas à Joan.

Privativamente, porém, durante a transmissão de um dos filmes de Joan Crawford na televisão, Davis observou com cuidado sua rival antes de dizer: “essa mulher era linda!”

Na cerimônia do Oscar do ano seguinte, da qual Bette era a apresentadora, os olhos de Joan Crawford, a grande estrela de cinema, apareceram na tela e o publico aplaudiu. Olhando para o monitor, Davis parou por um instante e disse: “Pobre Joan. Ela se foi, mas não foi esquecida. Abençoada seja!”

Em seu testamento, Crawford deserdou seus filhos adotivos Christina e Christopher. Um ano depois, Christina respondeu com o livro Mommie Dearest (Mamãezinha Querida), mostrando Joan como uma mãe bêbada, abusiva e sádica.

“Eu não culpo a filha, não a culpo mesmo”, comentou Davis. “Uma parte da vida em que Joan nunca deveria ter se arriscado a tentar era a de ter filhos. Eu nunca me comportaria dessa forma... bem, eu duvido que os meus filhos escreverão um livro sobre mim.”

Mas o fantasma de Joan Crawford riu por último, pois em 1985, depois que Bette Davis fez uma mastectomia e sofreu um derrame, sua filha Barbara Davis Hyman publicou My Mother’s Keeper, dizendo que Bette era uma pessoa de índole ruim, completamente neurótica, profana e bêbada incontrolável, que descontava seu ódio do mundo abusando das pessoas próximas a ela.

Assim como Crawford, Bette deserdou sua filha. As semelhanças entre as duas estrelas talvez fosse grande demais para Bette aguentar.

Até o fim de seus dias, a mera menção do nome de Joan Crawford disparava um discurso amargo da parte de Bette. Em 1987, durante as filmagens de seu penúltimo filme, The Whales of August (Baleias de Agosto), Davis manchou a imagem de sua rival para todos no set.

O diretor Lindsay Anderson teria batido a mão em uma mesa e dito a ela que Crawford havia sido sua amiga e que ele não queria mais ouvir falar dela ali. Batendo a própria mão na mesa ainda mais forte e gritando de volta, Bette fez seu último comentário sobre sua adversária:

“Só porque uma pessoa morreu,” ela disse, “não significa que ela tenha mudado.”





Como diria George Cukor: “Para mim, parecia que uma tinha o que a outra mais desejava ter. Joan invejava o talento incrível da Bette e Bette invejava o glamour sedutor da Joan.”



Originalmente publicado aqui.

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