Crítica: Mamãezinha Querida (Livro)

Christina e Joan Crawford




No epílogo de “Mamãezinha Querida”, Christina Crawford diz que quando foi ao memorial que os artistas de Hollywood fizeram para Joan Crawford, quase ninguém a reconheceu. George Cukor, achando que era uma fã que tinha burlado de alguma forma a segurança levantou de onde estava e perguntou “Quem é você?” ela respondeu que era Christina, a filha de Joan. Nessa altura todos já sabiam que Joan Crawford havia deserdado Christina e Christopher, os dois filhos mais velhos, “por motivos que os dois sabiam muito bem quais eram”, segundo o testamento. Myrna Loy, quando ouviu o nome, levantou imediatamente de onde estava deixando metade das coisas para trás, simplesmente para não ficar no mesmo ambiente que Christina. Myrna chegou a chama-la de imoral, ingrata e invejosa – e isso eu fiquei sabendo na semana passada. Eu, por diversas ocasiões enquanto lia o livro, vi uma enorme inveja muito mal disfarçada somada com um interesse financeiro absurdo vindo da Christina.

O livro já começa de uma forma bem sensacionalista. Parece até um romance muito bem planejado: começa na casa funerária, Christina contando que foi ver o corpo da mãe, a beijou e disse que a perdoava por tudo antes de realmente contar os anos em que passaram juntas. Em 2008, dez anos depois de não dar nenhum entrevista, na ocasião do anuncio de um relançamento do livro (com mais material!), Christina disse que jamais perdoaria mamãezinha querida. Ela incluiu material, mas acho que esqueceu de reler o que já tinha escrito para ignorar partes do primeiro capítulo.

Eu não acho que a história seja completamente “estória”. Imagino que Joan realmente tenha sido alcoólatra, como muitos outros artistas da época (Veronica Lake, que chegou a perder os dentes, para citar uma), a história de que Joan amarrava o Christopher na cama foi confirmada por diversas testemunhas, assim como as muitas vezes em que eles foram mandados para a cama sem jantar: isso a Cynthia, uma das gêmeas adotadas pela Joan confirmou também. O problema é que essas coisas foram romantizadas e a escolha de palavras somada com uma personalidade pouco confiável fez de uma mãe (supostamente) rígida, um monstro.

Se você não leu o livro e apenas viu o filme já fica o alerta: a própria Christina Crawford diz que o filme forçou (e muito) algumas cenas, inclusive aquela em que ela apanhou com o cabide de arame (NO WIRE HANGERS EVEEEEEEEEEEEEEEEEEEER!). 

Faye Dunaway como Joan Crawford em Mamãezinha Querida

Dito isto, vamos listar algumas outras coisas com outros pontos de vista (incluindo algumas coisas citadas na internet que constam em “Not the Girl Next Door”):

1) Assistindo Mommie Dearest (e até lendo o livro) você quase esquece de que a Joan tinha adotado 4 e não apenas 2 filhos. O livro foca exclusivamente as histórias em Christina e Christopher.

2) ATÉ HOJE a Christina usa o sobrenome da mãe que odeia, mesmo que esteja no terceiro casamento; as duas outras irmãs (que não odeiam a mãe, mas não usam o nome dela para se promover) mudaram os sobrenomes para os dos maridos.

3) Christina Crawford é uma autora best seller não apenas por Mamãezinha Querida, mas pelo romance “Viúva Negra”. O que comprova que temos aqui uma grande imaginação.

4) Diversas pessoas desmentem as histórias de Christina Crawford. Myrna Loy, como dito anteriormente, que conhecia a Joan desde 1925, Douglas Fairbanks Jr. que foi o primeiro marido e muita gente diz que ela teria se casado com ele apenas porque era filho do Douglas Fairbanks e enteado da Mary Pickford, que eram os reis do cinema da época (Gloria Swanson menciona em sua biografia que ninguém acreditava que o casamento realmente aconteceria e que foi um escândalo no mundo do cinema da época, já que o pai e a madrasta eram contra o casamento), Ann Blyth (que contracenou com ela na época de Mildred Pierce – que teria sido uma das piores épocas segundo o filme/livro), Van Johnson, Cesar Romero (sim, o Coringa haha), Bob Hope, Barbara Stanwyck, Sydney Guilaroff, Gary Gray, etc. Algumas pessoas como Eve Arden (também de Mildred Pierce) dizem que, talvez, ela pudesse ter dupla personalidade e ataques de fúria causados pelo alcoolismo. Outras apoiam completamente as histórias de Christina, embora nenhuma delas possa ser considerada realmente próximas à família, tirando o Christopher.

5) Joan Crawford amarrava Christopher Crawford na cama. Ela usava fivelas especiais (como aquelas que usamos para prender bebês ao corpo) porque Christopher era sonâmbulo e o quarto das crianças obviamente ficava destrancado, mas no segundo andar de uma casa onde havia uma enorme escada de mármore. Além disso, a cama era bastante alta. A indicação da cinta para prender o menino na cama foi feita por um médico para a própria segurança dele.

6) Christina menciona dinheiro mais vezes do que o necessário. Dinheiro é obviamente uma coisa muito importante para ela e a Joan ter cortado vários gastos dela durante a adolescência – quando a própria Joan chegou perto da falência tendo que hipotecar a casa duas vezes - parece ter deixado a menina furiosa. Imagine então quando ela descobriu que não receberia um centavo da herança! Ela diz que não era pelo dinheiro, mas pela “humilhação”. As irmãs mais novas dividiram o que receberam com ela e com o Christopher, mas mesmo assim ela se sentiu humilhada e lesadas, tendo lançado o livro dois anos depois.

7) Em 1976 Joan já sabia que a Christina estava usando o seu nome para ganhar dinheiro e temia que ela realmente estivesse escrevendo um livro ou algo assim para manchar a imagem da mãe de alguma forma. Chegou a conversar com John Springer sobre isso dizendo “Imagino que ela pense que eu não vá deixar dinheiro o bastante para ela...” então, se referindo à adoção de Christina acrescentou: “Não há boa ação impune”. Quando ele perguntou se ela leria o livro, ela respondeu: “Eu pretendo não lê-lo. Para que estragar dias da minha vida lendo um livro que irá apenas me magoar? É contra as minhas crenças.(...). Aprendi que as pessoas te magoam apenas se você permitir. Eu prefiro cortar da minha vida pessoas que querem me magoar do que permitir que elas continuem nela insistindo em me causar dor.” Nesta mesma época Joan Crawford pediu que Christina deixasse um apartamento em Beverly Hills que emprestava para ela e passou a não vê-la por muitos meses.

8 ) Christina Crawford foi enviada para um convento na adolescência. Isso porque ela havia fugido de casa aos 11 anos e admitido ter seduzido e feito sexo com um bolsista da escola onde estudava de 16 (dizendo ter 16). Depois disso fugiu da escola (ou dizia ir para casa de amigas) para sair com garotos e/ou encontrar um namorado que ela sabia que a mãe não aprovava.

9) A história da carne “crua” é bem mais complexa do que é mostrado no filme (assim como o fato de as crianças irem dormir sem jantar). Na época da guerra carne vermelha era proibida. Joan comprou carne no “mercado negro”, pagando muito mais do que custaria em dias normais, a pedido dos filhos. Quando Christina se recusou a comer, ela mandou a menina dormir sem jantar. O filme e o livro da Christina dizem que isso se repetiu por vários dias, o que eu acho completamente improvável visto que Joan era maníaca por limpeza e não aturava qualquer coisa que sequer PARECESSE estragada na geladeira. Ela mesma limpava a geladeira e os armários, aliás, porque não confiava no serviço das empregadas ou da cozinheira. Assim como Christina, Cindy e Cathy Crawford foram mandadas para a cama sem comer diversas vezes por desobedecer alguma regra.

10) Todas as crianças realmente ajudavam a limpar a casa, mas não eram mantidas em um regime de quase escravidão como a Christina pinta. Joan queria que eles soubessem como fazer as coisas porque imaginava que não teria para sempre a vida de estrela de cinema e não queria que eles ficassem mimados.

11) Eles realmente tinham que doar parte dos presentes para crianças carentes. Os filhos de Joan Crawford recebiam presentes de artistas e fãs de TODO O MUNDO. Eles sequer teriam como brincar com tudo o que recebiam e ela desejava que eles, além de fazer uma boa ação, não ficassem tão apegados às coisas materiais. Eles não eram obrigados a escolher UM, mas alguns presentes. Jamais mantinham todos.

12) Christopher Crawford fugiu de casa diversas vezes (ficou desaparecido por três dias certa vez, morando escondido em um cais), foi expulso de várias escolas, arrumava briga com frequência e era considerado, desde criança, um “menino problema”. Deixou de conversar com a mãe antes de ser enviado para a guerra do Vietnã, e Joan sabia dele apenas pela Christina – a única na família que ainda mantinha contato por carta com o irmão. As outras duas irmãs também não gostavam de Christopher. O único período em que Christopher teve bom comportamento foi quando Christina estava em um convento e sem autorização de sequer trocar cartas com qualquer pessoa sem que fossem supervisionadas pelas freiras – e isso foi algo que a própria Christina afirmou, mas diz que o irmão tinha “caído no feitiço” da mãe.

13) Joan Crawford morreu há 36 anos. Ainda hoje Christina ganha dinheiro dando palestras e republicando o que ela diz que foi um passado triste e doloroso, mas que ela faz questão de reviver. Foi ela, aliás, quem ajudou a escolher o diretor e a atriz para a adaptação de Mommie Dearest para o cinema.

14) Cathy e Cindy (já não mais Crawford) dizem que nunca viram Joan como Christina diz ter visto, não lembram de nada tão absurdo e que nunca foram castigadas além do que qualquer mãe nos anos 40 castigaria. Elas apanharam – como grande parte das crianças da época -, lembram de que a Joan uma vez fez o Christopher mostrar o polegar vermelho que ele ainda chupava em uma idade em que deveria ter parado, apenas para ver se ele es envergonhava do que fazia (como a mãe de muita gente deve ter feito) e de regras rígidas que tinham para sair de vez em quando (porque, segundo elas, havia risco de sequestro, que era comum com filhos de artistas), mas nada que considerassem absurdo ou abusivo.




E isso já ficou grande demais, mas são basicamente os motivos de eu realmente achar que a Christina é mentirosa.


Postado originalmente aqui

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